15 fevereiro 2006

VIDA DE CÃO

Amigos, tenho estado ausente e vocês já sabem o motivo. Tive uma piora nas dores da coluna e, infelizmente, preciso evitar o PC. Para não ter que decretar "hiatus" vou postar um e-amil que recebi da amiga Simone Nardi . Como a própria Simone diz é um texto longo....mas leiam por favor.....
As fotos foram tiradas por minha filha no CCZ. Todos esses animais já não vivem entre nós......FORAM CONDENADOS A MORTE POR UM ÚNICO MOTIVO:ABANDONO!.....Espero que tenham encontrado a felicidade que não tiveram nessa vida.




"O texto é longo e forte, mas quem sabe lendo-o não possamos fazer algo mais por aqueles que não sabem, não podem pedir ajuda ? "
Beijos,
Simone Nardi

VIDA DE CÃO

14h32m "Canil Municipal, bom dia."

"É daí que recolhem os cães ?
Tem um cão com a pata toda comida nafrente da minha casa, acho que é bicheira.
Apareceu faz uns três dias e não levanta mais... Manda a carrocinha logo, por favor !" "
... o seu pedido é uma emergência e vai ser passado pelo rádio para que o recolhimento do animal seja feito ainda pela manhã."
"Ai que bom, moça. A gente sofre vendo o bichinho sofrer, né ?!
O que é que vocês fazem com eles depois, hein ?
Sabão?"

15h17min
"Central chamando Apreensão!!"
"Apreensão na escuta."
"Tem um cão atropelado na Rua das Acácias. O animal está na calçada, ao lado do mercado Santos. Parece que está com a pata quebrada."
"Ok. entendido."
17h
"Apreensão chamando Central !!"
"Central na escuta!"
"Avisa a veterinária que tem dois cães para eutanásia.."
"Ok."

Na seringa, o sangue do animal misturava-se ao líquido letal incolor espalhando-se como um manto vermelho.
Ora era de um vermelho vivo - sangue de cão forte. Ora de uma cor pálida, alaranjanda - cão fraco, doente.
Jáperdera a conta de quantas já havia feito - talvez umas mil.
A do dia era a 34ª - trigésima quarta. Sabia porque anotava cada uma na planilha de eutanásias: canino ou felino; macho ou fêmea; filhote, adulto ou idoso; apreensão, doação, maternidade ou cela coletiva.
Gostava de anotar no espaço em branco uma observação: cadela prenhe, tumor de Sticker,cinomose, atropelado. Ajudava a dividir a culpa. Afinal, papel aceita tudo mesmo. Os humanos têm direito a atestado de óbito individualizado, padrão internacional. Os cães não. Seu ritual funerário é o transporte até um aterro sanitário onde decompõem-se junto às sobras da civilização urbana, enriquecendo o denso chorúmen.
A estas alturas já não sabia mais qual a denominação certa para a eliminação dos animais: eutanásia, sacrifício,execução, extermínio ou destruição. A literatura internacional dos livros e papers a deixava mais confusa ainda: elimination, killing, destruction, euthanasia, putting to sleep, putting down.
Gostava de dizer eutanásia porque era uma palavra forte chamava a atenção das pessoas, provocava.
Palavra dolorida que já estava incorporada na rotina de trabalho, no seu dia-a-dia. Trabalho que ia muito além do sacrifício braçal.
Consumia-lhe horas de brainstorm - monólogos - intermináveis para tentar entender a aceitar aquela loucura banalizada - e horas de sono.
Às vezes sonhava com uma pilha de cães mortos ou acordava ouvindo latidos.
Na hora de fazer eutanásias, procurava ser a melhor possível para que fosse rápido e indolor para o animal.
A vestimenta branca que utilizava, avental, gorro, máscara e luvas, além de ser um ritual médico-sanitário, despersonificava-a fazendo-lhe parecer uma máquina de injetar. Na hora de fazer, passava muita coisa pela cabeça. Teorias sobre a morte e a dor surgiam.
Sabia que cada animal comprado nos anúncios dos classificados ou nas pets significava uma adoção a menos e uma eutanásia a mais.
Na hora de fazer, sentia raiva das pessoas. Dos donos
que entregavam os animais porque estavam velhos. Das pessoas que abandonavam na rua animais que tiveram uma casa, vasilha com água limpa e ração.
O padrão racial não era impedimento para que os mesmos fossem descartados pelos donos no Canil Municipal - posto de entrega voluntária dos animais não mais desejados.
Poodles branquinhos e cinzas, cocker caramelo, fila tigrado, rotweiller, pastor, husky e até akita ! Se não fossem adotados, em poucos dias adoeciam pelo ambiente infecto e pela depressão que os acometia.
Alguns donos diziam: "ele apareceu lá em casaanteontem".
Ia ver, era um cão bem tratado, pêlo brilhoso e abanava a cauda para o dono mentiroso.
Os sinais caninos não mentem. Outros donos confessavam: "comprei ele, mas não deu certo. Ele late muito e morde o sofá."
Para conveniência e praticidade dos humanos, as teorias comportamentais caninas e felinas eram ignoradas ou ridicularizadas.
No cárcere canino, cada cão era uma história de vida a ser eliminada com uma injeção instantânea.. Só nas celas coletivas, mais de 200 detentos caninos aguardando - sem saber - o dia em que partiriam para outra esfera. Sim, deveria existir no além do além um mundo menos cruel.
Uma das que mais lhe marcara foi a de um cãozinho atropelado. Era sexta-feira e como restavampedidos de urgências não atendidos, fez-se um plantão noturno. Anoiteceu e na espera do veículo chegar, pensava nas tarefas domésticas.
O tempo não passava e o estômago lhe doía pela fome. Já havia preparado todo o material: seringas, anestésicos, tranqüilizantes, mordaças. Quando a pick-up chegou, viu o animal no fundo da gaiola. Encolhido em sua dor, manifestava sua agonia através de um choro que parecia de gente. Teve vontade de gritar, sair correndo e levá-lo para um hospital.
Mas ascircunstâncias pediam outra atitude. Eu = boa; Tanathos - morte:morte boa. Já havia aprendido que para muitos animais a morte é a cura para a dor. Naquela tarde, ainda aguardava a pick-up trazer dois cães para eutanásia. Já passava das cinco horas quando acompanhou o atropelado ser retirado da gaiola. O que de pior ainda poderia acontecer ao animal depoisde ter sido alvo de um ser dito racional que fez de seu carro uma extensão do seu corpo e fúria ? E ser transportado ferido no camburão com outros caninos apreendidos, classificados como perigosos e ameaçadores à saúde da coletividade ?
Ao entrar na sala de execução, o animal viu os cães mortos no chão, empilhados. Estava atento ao ambiente estranho, percebido pelos sons e cheiros. O sangue e os excrementos na mesa ao lado eram o registro da vítima anterior: cadela idosa, medo e dor. Sinais da comunicação canina. "Será que ela foi atropelada como eu ?", deve ter pensado.
Já com a boca devidamente amordaçada pelo funcionário, observava com os olhos assustados uma moça que vinha em sua direção.
Sentiu uma picada no glúteo e começara a adormecer.Circular entre os cadáveres e os seus excrementos, o cheiro fétido do ambiente e os latidos ensurdecedores exigiam-lhe um esforço em dobro. Não eram suficientes para tirar a sua concentração. Enquanto colocava o álcool iodado que ia se espalhando nos pêlos da pata dianteira até tocar a pele, a veterinária notou que o cão possuía no pescoço um sinal de sua desconhecida história: uma coleira de couro encardida.
Os carrapatos minúsculos que circulavam entre os pêlos, eram os atores secundários da saga canina. Apertou-lhe a pata como um pedido de desculpa e um sinal de despedida. Os auxiliares aguardavam atentos o momento esperado. Garrote feito, veia saltada - punção certeira. Sentia perfeitamente a agulha perfurar o vaso. O sangue veio bem volumoso. Injetou devagar o líquido, enquanto observava o animal desfalecer. Em poucos instantes, que mais pareciam uma eternidade, o ser canino transformava-se em cadáver... Constatou a ausência de reflexo ocular e de batimentos cardíacos.
Óbito confirmado.
Dentro do avental branco uma criatura anestesiada e dessensibilizada. Sentia que ao matar, também morria. Acondicionava a seringa utilizada no descartex amarelo. Mas onde despejar aquele sentimento de culpa, frustração e tristeza ? Descobrira que existe um tipo de lágrima que escorre por dentro, acumulando-se nos interstícios do corpo.
Enquanto percebia suacervical dura e os dentes cerrados, anotava na planilha de eutanásias: cão macho, adulto, atropelado com fratura no membro posterior esquerdo, posterior insensível. Queria escrever algo mais para individualizar e humanizar o seu procedimento, mas faltava-lhe a palavra. Não sabia que o cão sacrificado um dia tivera um dono e um nome : era chamado de Valente.

VIDA DE CÃO por Simone Barcelos Gutkoski
** Simone Barcelos Gutkoski trabalhou como veterinária do Centro de Zoonoses de Porto Alegre de julho de 2000 até o final de 2001.
Em 2002, o conto "Vida de Cão" recebeu o Prêmio Revelação Literária

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19 comentários:

Zeca disse...

Visita de médico.
sópara te dizer que deves de mudar o meu url para http://algeruz.blogspot.com/
Plagiadíssimo 2
Fica bem e obrigado.

Regina disse...

Ola anjinho, nossa estava aqui viajando com seu blog, a gente fica admirada com tanta beleza e criatividade, parabéns. Peguei um link seu ta, quero lhe oferecer o meu award vc merece. Sempre que eu puder estarei aqui, e lhe peço o mesmo.

De sua nova admiradora

Regina

Amaryllis disse...

Fiquei profundamente triste depois dessa leitura...
Como dói saber dessas coisas assim. É tão triste saber que há tantos cães e gatos abandonados pelos seus donos. E que depois de lhes darem tanta dedicação, acabam morrendo de forma tão degradante, abandonados nos CCZs. Recolhi há 3 meses atrás um chow chow das ruas quase morto, com sarna em estado avançadíssimo e com doença do carrapato. Um cão tão bom de coração, índole maravilhosa, que pedia por atenção e amor. Tratei-o e hj ele está irreconhecível, lotado de pêlos. Super saudável. Acabei não ficando com ele, mas um casal amigo meu o adotou e sempre o vejo.
Teve muita gente me chamando de doida, mas fiz o que achava certo. Sabia que aquele cão não teria outra chance se não pegasse ele. Até mesmo um veterinário me recomendou que eu ligasse pro CCZ pra que ele fosse recolhido. Que um cão naquele estado não era algo pra que eu assumisse. Aí, ele me falou que lá no CCZ eles iriam tratar dele se achassem que a doença tinha tratamento. Caso contrário, ele seria sacrificado. Mas só mesmo muito idiota pra acreditar que no CCZ, um exterminador de animais, iriam querer "perder tempo" com um animal sem pêlo, todo tomado de sarna e com doença do carrapato! O resultado está aí: apenas 3 meses de tratamento e ele feliz e saudável com um lar maravilhoso! Seria tão bom se essa realidade dele fosse a de todos os outros... E melhor ainda, se as pessoas não abandonassem seus animais como se eles fossem descartáveis. O caso desse chow chow foi absurdo: descobri quem era seu "dono" e que ele o abandonou pq ele já não agüentava mais o cão comer as galinhas dele, e em ele pegando sarna, não quis tratá-lo. Sem comentários!

Amaryllis disse...

Ah, se vc quiser ver as fotos dele, vá no meu fotoblog: www.amaryllispereira.fotoblog.uol.com.br

Lá tem as fotos do dia em que eu o peguei e as atuais.

Abraço!

Águas da Vida disse...

Ola amiga. Realmente é repugnante certas coisas que lemos, com a internet ficamos mais informados, a informaçao é sem senssura e acho que esse tipo de liberdade de mostrar ao mundo atraves de blogs e sites o que acontece no mundo de hoje podera ser senssurado por governantes que controlam o mundo, antes quem iria imaginar esses horrores que fazem?
Desejo melhoras querida e um lindo final de semana.
Big Kiss

soslayo disse...

FÁTIMA, é realmente uma triste realidade, aquilo que descreves neste e-mail que publicáste extraído da experiência duma Veterinária! Vale-nos, pelo menos a tua luta na tentativa de demover as pessoas destes atos cruéis. Um beijinho.

Ana disse...

Olá, vim te agradecer por sua visita ao meu cantinho e te dizer que seu blog está ótimo; parabéns, continue sempre...Que Deus te abençoe, querida! Abraços.

Águas da Vida disse...

Passadinha para desejar melhoras e um lindo inicio de semana.
big Kiss

Dani/Kali disse...

Oi!!!
Depois de ler esse texto me deu um nó, um aperto no coração... E fiquei pensando que poderia ser a Mila ou a Kira, pois ambas vieram da rua... Me deu revolta de pensar nessas pessoas que pensam que animais são objetos descartaveis, vc compra, mas se ñ gostar joga fora, como se fosse lixo... mas pq esperar humanidade nesses seres ditos humanos, afinal se abandonam crianças e idosos, pq seria diferente c/ animais, a realidade é lastimavel...
Mas apesar disso ainda vemos humanidade em alguns atos, imagine que o Hospital Santa Casa aqui em Sampa, virou santuario de gatos tb!!! Eles tem casinha e comida, e são bem tratados, pois desde que começaram a aparecer sumiram os ratos é possivel ve-loes passeando entre as pessoas, seria tão bom existir mais espaços assim, afinal pq o ser humano ñ pode dividir espaço c/ os animais???
Mudando um pouquinho o assunto, a Mila vai castrar mês que vêm já!!!
Beijinhos

sá morais disse...

Ficamos muito sensibilizados com o teu blog, apesar de já sabermos dessa realidade. Já pusemos artigos e fotos sobre este assunto no nosso blog, que apesar de ser de politica, também "sente" estes assuntos. Toda a gente deu-nos razão. Força. Continua.
beijinhos de Portugal.

visita-nos em ideiasfixas.blogs.sapo.pt

michele disse...

Olá, estou aqui para te convidar para participar do sorteio de destaque no meu blog, que terá início neste domingo dia 26/02/2006. Tenha uma ótima semana, Michele.

JKishin disse...

Não desista colega, estamos rezando por vc. Pessoas que agem.
Sempre na luta.
T+

Jorge Moreira disse...

As melhoras!

Tucha Santos disse...

Querida Fátima, lamento que não esteja melhor. Vc merece que Deus a ajude e lhe dê muita força para continuar a sua luta. Os seus posts, me deixam smpre com lágrimas nos olhos! Um beijo carinhoso com os meus votos de rápido restabelecimento.

Lucky disse...

Auauauuuuuuu
desculpe a meu sumiço, mas eu tô voltanbdo e levei o selinho da campanha...
fico triste quando leio coisas assim...como podem nos maltratar tanto??? não fazemos mal a ninguém...quando puder passe lá nas minhas bagunças..
Lambidinhas do Lucky

Anônimo disse...

Great work!
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Anônimo disse...

Thank you!
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Anônimo disse...

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